EDITORIAL

O Festival Internacional de Música de Câmara de Manaus – Encontro na Selva, que desde o ano passado tem periodicidade anual, vem se consolidando como um evento regular que visa promover a interação musical através do diálogo intimista das obras compostas para pequenas formações instrumentais. Esta quinta edição demonstra claramente o processo de amadurecimento do festival, cujas dimensões se ampliaram consideravelmente: a programação deste ano consiste de 8 concertos e 5 oficinas a serem realizados tanto no Centro Cultural Palácio da Justiça quanto na Escola Superior de Artes e Turismo da UEA ao longo do mês de agosto de 2018. Outra novidade será a presença de artistas convidados vindos dos EUA e outras regiões do Brasil, reforçando ainda mais o caráter internacional do evento, que já vinha reunindo músicos de diversas nacionalidades atuantes na cena local. Por fim, o festival também inaugura as suas atividades pedagógicas ao oferecer masterclasses gratuitos de violino, piano e música de câmara ao público geral.

O concerto de abertura será conduzido pelo Quinteto Elgar, grupo residente do festival desde 2017. Nesta edição o grupo recebe como convidados os jovens violinistas Bogdan Hudzelaits, vencedor do Concurso Jovens Solistas da OSESP, e Felipe Fernandes, vencedor do Concurso Stela Mota, para interpretarem o Quinteto em Sol Menor Op. 57 de Dmitri Shostakovich. Na mesma noite teremos ainda a violoncelista do quinteto, Anna Samokish, que se junta ao pianista Renan Branco para interpretarem Schumann. Por fim, este concerto também incluirá uma apresentação especial de Bogdan ao lado da pianista Irina Kazak, marcando a despedida de Manaus deste talento promissor que amadureceu musicalmente junto com o festival, e que a partir de agosto iniciará o curso de Bacharelado em Violino na Indiana University, nos EUA.

O segundo concerto do festival será dedicado a explorar as conexões entre a música de câmara e práticas equivalentes da música popular. Desta maneira, o choro estará contemplado no repertório da Camerata de Choro da UEA, bem como as práticas dos conjuntos e bandas regionais, representadas no repertório da Banda Manauense, que trará um recorte muito específico derivado das bandas brasileiras tradicionais de origem militar. Por fim, teremos a música do mestre argentino Astor Piazzolla interpretada pelas búlgaras Maria Grigorova (violino) e Adriana Velikova (violoncelo).

O destaque do terceiro concerto é o pianista gaúcho Germano Mayer, que estará tocando pela primeira vez em Manaus, a convite do festival. Sua apresentação consistirá das Davidsbündlertänze (Danças da Liga de David) op. 6, de Robert Schumann, obra de grande fôlego que explora musicalmente as personalidades contrastantes de Eusebius, o sonhador, e do exuberante Florestan, as duas personagens que representam a constante mudança de polaridade na arte do genial compositor alemão. Neste concerto, também teremos Schubert, interpretado pelos jovens integrantes do Quarteto Ajuricaba, e novamente Piazzolla, agora interpretado pelo Duo Tango.

O quarto concerto será dedicado ao repertório para violino e piano, com obras de Mozart, Brahms e Fauré interpretadas pelo excelente duo formado pelo violinista russo Evgeny Zvonnikov e o pianista brasileiro Diego Caetano, ambos atualmente radicados no Texas, nos EUA. Os dois convidados são instrumentistas com merecido reconhecimento no meio musical, tendo inclusive premiações em concursos internacionais. A honraria mais recente coube a Diego, que acaba de receber o primeiro prêmio no Concurso Internacional de Piano de Bucareste, na Romênia.

O quinto concerto tem como destaque a grande diversidade de formações camerísticas e repertórios. O programa inicia com o duo formado pelo violinista Tiago Ellwanger e o pianista Gabriel Neves Coelho, que interpretarão Janácek e De Falla. Após isso, ouviremos a rica sonoridade do quarteto de violões nas mãos do Iberê Quarteto. Prosseguindo, teremos o Trio Op. 11, de Ludwig van Beethoven, interpretado por Vadim Ivanov (clarinete), Edoardo Sbaffi (violoncelo) e Filipe Alexandrino (piano). Por fim, teremos a oportunidade de conhecer o repertório eclético desenvolvido pelo grupo Arte Grave.

O sexto concerto celebra a confraternização através da música de câmara.  No programa, bastante diversificado, escutaremos obras de Beethoven com a violinista búlgara Maria Grigorova e o pianista brasileiro Renan Branco, bem como com o Quarteto Aracema. Também teremos Schubert, outro mestre da música vienense, na interpretação de Débora Batista (viola) e Elias Ferreira (violão).  Neste mesmo programa, teremos um trio para oboé, viola e piano de Klughardt interpretado pelos músicos Judith Simon, Débora Batista e Pedro Panilha, respectivamente. Para finalizar, escutaremos Tomasi com o trombonista Hugo Pinheiro, acompanhado ao piano de Renan.

Membros da Orquestra Barroca do Amazonas (OBA), grupo musical que toca em instrumentos históricos com foco na música luso-brasileira dos séculos XVIII e início do XIX, apresentarão no penúltimo concerto interessante repertório de música germânica contemplando pequenas formações instrumentais. Destaque neste programa é a presença de duas obras do compositor Johannes Mathias Sperger, cuja reputação está associada principalmente à sua atividade como contrabaixista, instrumento para o qual legou extenso repertório.  Além dele, também interpretarão a música do alemão Wilhelm Friedmann Bach, filho mais velho de J. S. Bach, e o que se manteve mais próximo do estilo composicional do pai.

Por fim, teremos um encerramento em grande estilo com a presença da Orquestra de Câmara do Amazonas sob regência do maestro Marcelo de Jesus. Este programa se destaca pela participação não só da orquestra, que interpretará a Suíte Orquestral no. 3 de J. S. Bach, mas também de jovens solistas envolvidos com o festival: teremos Mozart com o jovem pianista Filipe Alexandrino, que acaba de retornar de um Mestrado em Performance nos EUA; Shostakovich com a pianista Clotilde Monteiro, vencedora da última edição do Concurso de Piano Maria Izabel Desterro e Silva; Bruch com a violoncelista russa Anna Samokish; e um movimento do Concerto em Ré menor para dois violinos de Bach com Felipe Fernandes e Bárbara Soares.

Como vimos, esta edição do festival traz várias novidades, mostrando as distintas e variadas faces que a música de câmara pode assumir. Ou seja, o diálogo musical existe tanto em um quarteto de cordas como num grupo de choro, tanto na interação entre um duo de violino e piano como na música feita para um conjunto orquestral. Nosso “Encontro na Selva”, como é carinhosamente chamado o festival, está aberto a todas estas direções que a prática camerística pode assumir, transcendendo períodos históricos, fronteiras estilísticas, e estimulando a confraternização entre as pessoas.

 

Um excelente festival a todos!

Comissão Organizadora